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Da varanda 
Eliane Muniz
Atualmente, ao cair da tarde, vou para a varanda. Eu, a vida, o tempo e os meus
pensamentos. Eu gostava de deixar a vida correr, sem preocupações, sem
meditações. Agora, sozinha, a tarde cai, não mais que eu e os meus sonhos. O
tempo, não obstante, corre junto ao vento, e eu queria correr com ele para fugir
da angústia que me persegue. A ventania me faz ouvir somente os estalos das
folhas secas das árvores da rua deserta onde moro. Esse mesmo vento resseca a
todo instante meus olhos úmidos e desertos.
É outono. A vida é silêncio. Minha boca emudece. O vazio constante do meu olhar
consegue apenas enxergar a rua virando a esquina até desaparecer naquela curva.
Os pensamentos que me afligem e os anseios que me nutrem, circundam a rua e me
envolvem num vai e vem sem cessar, dando a volta no quarteirão. De um azul -
acinzentado, o céu vai se avermelhando. Aos poucos: um brilho aqui, outro ali...
Dalva, a mais bela de todas, com sua intensa luz tenta reacender minha vida que
anda meio apagada. Os brilhos que despontam, poderiam estar dentro de mim.
Mas,... são somente as estrelas surgindo no céu. Milhões de pontos brilhantes. O
infinito me engole. Fito a noite como se estivesse fora do mundo. A lua, triste
e compadecida, não surge. Me olha escondida de algum lugar, mesmo estando clara
a noite. As luzes dos morros ao longe piscam como se fossem para fazer pulsar
num mesmo ritmo o meu pobre coração que apenas bate cansado.
A madrugada vai crescendo na minha varanda. Me aperta, me encurrala tamanha é a
sua grandiosidade. Pensamentos tortos. Atos corretos. Mistérios ao redor.
Minhas idéias e ideais continuam apagados e escuros, diferentes do amanhecer que
vem chegando pausadamente. De mansinho, fraco como eu, o dia vem surgindo. Está
bem claro. O sol não veio. Ou está conversando com a lua ou talvez esteja em sua
casa, olhando da sua varanda, triste e sem brilho, a vida passar...
Eliane Muniz: e-mail:
elmuniz@aol.com
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