|
Leni Neves Bandeira
LENI NEVES BANDEIRA - Professora de Língua Portuguesa do IERP
(Instituto de Educação Rangel Pestana)
"Assim é a trajetória de professores e alunos. Somos sementes
tão iguais e tão diferentes. Umas sabem a que vieram, outras buscam ainda, não
sabem exatamente o quê. As que sabem criam projetos e conduzem as outras a
participar dos mesmos, a criar outros, acreditando sempre em mudanças. As
primeiras acreditam sempre em mudanças, em transformações - até porque trabalhar
com ser humano é um eterno desafio, um risco e a mais surpreendente de todas as
aventuras e emoções - assim vamos traçando caminhos e tecendo a vida, porque não
somos mais simplesmente professores; SOMOS EDUCADORES!"
Leni Neves Bandeira
|
LENI
BANDEIRA
|
Lançamento do Livro
TECIDO NO TEMPO
XII BIENAL DO RIO |
|
|
-DIA 14 DE MAIO - 15 HORAS
PAVILHÃO VERMELHO
- Rua D (com Rua Mário Quintana) - STAND 56
RIO CENTRO - RIO DE
JANEIRO |
|
Série Escribas - poesia
Tecido no Tempo é um envolvimento entre a vida e o tempo. Leni Neves Bandeira
vai desafiando através de cada verso este espaço que há entre os dois lados da
ampulheta: ora o tempo favo rece a vida, ora o tempo a aniquila. Não tem uma
saída.
O tempo, que pode acabar em qualquer esquina, vai deixando rastros que precisam
ser decifrados. Mas o tempo caminha para morte, para solidão e para saudade. A
máquina mantém a rotina. Não há como escapar.
Leni, sem compromisso, envolve o leitor com seus versos de tal maneira, que
aviva os esquecimentos que habitam o seu interior. Não busca definir nada
(“Definições nada definem”), apenas, costura o tempo, as palavras e as
recordações.
Alguns versos são perigosos, cortam como fio da navalha, proporcionam uma viagem
em direção ao nosso passado. Outros, simplesmente, resgatam imagens universais
que estão armazenadas dentro de cada um.
Sem tomar partido na luta social avança em direção à dúvida. Deixa escapar em
“Depoimento” sua admiração ao comandante Che. Há versos em que ressalta a
determinação, a busca do sonho, da igualdade e para isso passa por cima da
morte.
Vale a pena mergulhar nesta aventura e perceber os enigmas que o tempo vai
tecendo...
Este livro precisa ser relido para que a sua essência seja abstraída. Os poemas
são como se fossem segredos guardados numa garrafa que navega ao léu durante
séculos. Poderão trazer novidades, mas se você se recusar a abrir a garrafa
ficará na dúvida.
Convido vocês, antes que a vida siga o seu curso, a abrirem esta garrafa. Espero
que tomem para si todo seu conteúdo e aceitem seu desafio.

Poemas da Leni Neves Bandeira:
TEMPOS MODERNOS
A cada ano que passa, ficamos
Irremediavelmente mais pobres,
Irremediavelmente mais vazios,
Irremediavelmente mais sem alma.
Perdemos num curtíssimo espaço de tempo
O grito de alerta de Gonzaguinha,
A voz de sabiá de Taiguara,
A força em forma de fragilidade de Betinho,
A palavra de amor personificada - Madre Teresa de Calcutá.
Num curtíssimo espaço de tempo,
Estamos mais vazios de compreensão,
Mais vazios de vidas
Que nos trouxeram exemplos
E não tentamos sequer copiá-los;
Que nos mostraram como fazer
E não tentamos sequer aprender;
Que se deram em amor
E nós apenas admiramos,
Apenas lamentamos
E já estamos esquecendo...
O que será de nós?
DEPOIMENTO
De que adianta pensar agora
Se a vida está torta,
Se o mundo está torto,
Tudo está torto,
Até meus pensamentos ficaram tortos
Segundo a visão do poder.
De que adianta falar agora
Se a vida está consumada.
O mundo se consumou.
Tudo está consumido,
Até meus argumentos...
Só tenho a oportunidade de repassar
Os fragmentos do meu filme
(Minha vida foi um filme
Formidável de origem e na origem:
Minha mente... um projetor...
Sensível e temperamental
Que só retém e repete
O que lhe é significativo
O que se diz marcante,
O que será eterno
Enquanto a eternidade for humana.
Enquanto o humano acreditar nela.)
Vejo o que fiz.
Vejo o que eu não fiz,
Vejo-me agora e não me angustio.
Repetiria tudo...
Talvez com mais veemência
É certo que com mais emoção
E antagonicamente com toda razão.
Eu passo como tudo...
Passo como os seres,
Passo como a vida
Mas não passo por ela.
Eu finquei meus passos na sua estrada,
Eu finquei minhas idéias em suas rotas,
eu cravo meus pensamentos nos seus adeptos.
Eliminam-me,
Eliminam-me para que meu filme
Não se transforme em ar
E seja indispensável a vida,
Não se transforme em pão
E seja o centro para a sobrevivência.
Erram pelo seu ângulo - acertam pelo meu.
Eu não me angustio mais...
O antigo desespero-agonia-luta-ansiedade agora é calma.
É a calma do que tem certeza
Do não-regresso, do irreversível,
Do corte,
Do corte de um fio misterioso-maravilhoso
Que por ser forçado
Me reforça (eu me torno ideal)
Que por ser cortado
Se multiplica (eu me torno arma)
Se propaga (eu meu torno eco)
Se espalha
Não como as cinzas do morto,
Não como as orações para a alma
Que se dissolvem rapidamente,
Que se perdem
Como o que não existiu...
Apagam meu corpo e minha voz,
Mas o meu filme continua,
O meu filme é a minha lembrança
Que o tempo só faz com que atravesse
CORPOS
MENTES
IDÉIAS
O meu filme domina por não se repetir
E por não se repetir se multiplica
Em cada ser, em muitos seres...
Em todo povo
Eu viro mito
Adquiro formas novas, formo época;
Contrario a lei do tempo,
Passo a ser mais que eterno.
Lucidamente o sempre mutável
ATUAL.
A Ernesto Guevara Serna,
o CHE
O CAMINHO
Surgem no meio de um espaço-escola,
Dentro de caixas - salas de aula -
Sementes de diversos tipos.
Sementinhas com olhares, sorrisos
Que muitas vezes acariciam,
Que muitas vezes arranham e até ferem,
Pois procuram seu caminho.
Estas sementinhas, magicamente
Vão se transformando.
Começam a se conhecer,
Vão se compactando
E formam um caule,
um caule que oscila
E recebe outra semente
(tão diferente e tão igual).
Esta semente adere ao caule,
O conduz e... caule e semente
Se fortalecem
E vão surgindo brotos que formam classes
E aparecendo folhas cheias de dúvidas.
Folhas frágeis, a princípio,
Que mergulham na gramática, na sintaxe, na literatura,
Que viajam nos “justifiques”,
Embaladas nas “palavras”,
Emboscadas nos “conceitos”,
Enlaçadas nas “estrelas”...
E folhas maiores e menores surgem;
Outras se agregam no meio do percurso,
Às vezes se revezam nos bimestres,
Às vezes nos semestres se mantêm
E ao longo de três anos
Uma fabulosa árvore acontece.
Agora imponente... frondosa
Agora sólida - magnífica -
Que devolve uma semente
(A semente tão igual e... tão diferente)
Ao espaço chamado escola
Para que mais sementes apareçam
E se transformem em novas árvores,
Para que os sonhos se tornem realidades
E... a vida siga seu curso
Tecido no Tempo
O tempo passa e crava uma data,
Uma data que se repete todo o ano...
Uma data que acumula novidades
E o tempo, pintor-escultor, age
Moldando o extremo-aparente,
Moldando o extremo circundante.
O tempo traz de dentro do ser
Um gesto, um sorriso, um jeito de colocar os óculos;
às vezes... uma piada meio sem graça
E, todo dia é um “olá”... “tudo bem?”
E ele, tempo, conduzindo seu tapete.
Ele, tempo, nos dispondo à sua vontade.
Afasta uns... aproxima outros...
Todas as afinidades ainda que distantes.
De novo ele aciona a mesma data.
Alguns se dão conta que é um aniversário,
Alguns se dão conta de presentes... bolos... festa;
Outros de lembrancinhas reais, de valores reais,
Outros ainda, recolhem “instantâneos”na memória:
O sorriso de quem, sem perceber, acaricia o mundo,
A voz que passa e deixa seu rastro,
A maneira peculiar de arrumar os cabelos com a mão,
A religiosidade no verde vermelho e branco.
Estes outros não trazem o presente material,
Não têm festa, não têm bolo.
Têm o percurso que o tempo faz.
Não têm o perfume das flores,
Têm as palavras que o traduzem.
Não têm o abraço físico,
Têm o deslizar das palavras,
Não têm o gesto efusivo, as palavras ditas,
A comemoração real, literalmente.
Eu sou um destes...
Tenho apenas o tapete destes anos de convívio
Que recolhi.
Tenho apenas os momentos alegres e sérios
Que registrei...
As flores?... Não as tenho,
Tenho palavras que desenhei
Formando o brilho do seu sorriso,
Formando a busca eterna
E o aluno-menino
Que o tempo teceu.
(Professora Leni Neves Bandeira )- e-mail:
lenibandeira@aol.com
VOLTAR PÁGINA BIENAL DO LIVRO |